quarta-feira, 10 de março de 2010

Canção da parada do Lucas


Parada do Lucas
— O trem não parou.


Ah, se o trem parasse
Minha alma incendida
Pediria à Noite
Dois seios intactos.


Parada do Lucas
— O trem não parou.


Ah, se o trem parasse
Eu iria aos mangues
Dormir na escureza
Das águas defuntas.


Parada do Lucas
— O trem não parou.


Nada aconteceu
Senão a lembrança
Do crime espantoso
Que o tempo engoliu.

Manuel Bandeira

sábado, 6 de março de 2010

Morte e Vida Severina


— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

João Cabral de Melo Neto

É isso...


É uma saudade que amputa
que decompõe a memória
que um dia foi lembrança
e hoje, é só nuvem
uma nuvem de chumbo
pesada, sobre o pensamento

E o corpo rasteja
é um corpo-cobra
sosbre os antigos pilares
da sobriedadede

É vontade de se dicipar
como água de chuva
no meio do mar

É a necessidade de correr
correr em direção a nada
se perder
sem ter hora
razão e habilidade

Quando consumido
nos perdemos
por entre outros
que se misturam

Eu queria a unidade
mas a unidade é um mentira
chrmosa e civilizada
por entre paredes.

Carolina Canon

quarta-feira, 3 de março de 2010

Pra vc guardei o amor...


Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que aprendi vendo meus pais
O amor que tive e recebi
E hoje posso dar livre e feliz
Céu cheiro e ar na cor que arco-íris
Risca ao levitar

Vou nascer de novo
Lápis, edifício, tevere, ponte
Desenhar no seu quadril
Meus lábios beijam signos feito sinos
Trilho a infância, terço o berço
Do seu lar

domingo, 21 de fevereiro de 2010


Meu coração anda apertado! Muita coisa nova acontecendo, umas muito boas e outras nem tanto assim...
Ando triste porque uma pessoa que me é muito estimada está de partida de São Paulo...
Sei que não posso fazer nada a respeito disso, cada pessoa tem seu caminho a seguir e suas metas a cumprir, mas é dificil fazer o coração entender essas coisas...
Sei que sou forte o suficiente para não deixar me abater por isso, mas eu realmente não queria ter que enfrentar mais essa...
Algumas pessoas que entram na sua vida de maneira provisória, vc acaba querendo que elas se tornem permanentes...
Sei bem que poderia ser bem pior, que essa pessoa poderia estar de mudança para a Finlândia, mas mesmo sendo para aqui perto, o coração da gente aperta e da uma tristeza e uma saudade antecipada...
Mas é a vida...um dia nossos caminhos se cruzaram e agora cada um está prestes a seguir seu próprio caminho, por mais dura que essa situação possa parecer, o que fica é a imensa alegria das lembranças vividas um dia juntos...e quem sabe lá na frente as coisas possam ser permanentes...quem sabe meu coração não possa bater melhor, um dia, na linha do mar...quem sabe?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Moça Caetana a morte sertaneja


Eu vi a Morte, a moça Caetana,
com o Manto negro, rubro e amarelo.
Vi o inocente olhar, puro e perverso,
e os dentes de Coral da desumana.

Eu vi o Estrago, o bote, o ardor cruel,
os peitos fascinantes e esquisitos.
Na mão direita, a Cobra cascavel,
e na esquerda a Coral, rubi maldito.

Na fronte, uma coroa e o Gavião.
Nas espáduas, as Asas deslumbrantes
que, rufiando nas pedras do Sertão,

pairavam sobre Urtigas causticantes,
caules de prata, espinhos estrelados
e os cachos do meu Sangue iluminado

Ariano Suassuna

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Minha esquina...


Já peguei meu violão
Pra falar do nosso amor
Mas se Deus concede o dom
A mulher concede a dor

Assim voltei pra minha esquina
Mas sem querer voltar
Canto até seis da matina
Para não ter que chorar

Mas não tem nada eu vou ficando com a rapaziada
Cantando um samba e outro no meu violão
Poeta que é poeta mora na jogada
Um amor que vai é mais uma canção

Mas quem tira ainda vai pôr
Pela lei da proporção
Quando Deus pede o penhor
A mulher pede o perdão

E assim deixei a minha esquina
Mas sem querer deixar
Mas rotina por rotina
Eu vou levando por levar

Mas o meu nome vai ficando pela madrugada
Que eu tenho um samba e outro pra cada emoção
Poeta que é poeta não perde a parada
O que vem é festa pro meu coração

Paulo Cesar Pinheiro

http://www.youtube.com/watch?v=Zrwf-lDIF2o